No último artigo, em que tratamos sobre o real valor das dicas de redação, afirmamos que as dicas podem ser úteis apenas para quem já conhece a atividade – seja qual for. Pesquisando o tema com mais atenção, encontrei um excelente artigo de Susan K. Perry, intitulado “11 Types of Bad Writing Advice” (“11 tipos de maus conselhos de redação”), em que ela analisa de forma brilhante um punhado de dicas de redação muito comuns que são extremamente nocivas, capazes de destruir a disposição de escrever em qualquer pessoa não dotada de total autoconfiança quanto aos próprios dotes literários.

Se contarmos que o traço de personalidade mais frequente entre os escritores, definitivamente, não é uma exacerbada autoconfiança, concluímos rapidamente que essas “inocentes dicas de redação” têm um tamanho potencial destrutivo que não seria exagero classificá-las como serial killers de carreiras literárias. Veja a seguir as 11 “dicas assassinas” e aprenda a evitá-las.

1 – Dicas que limitam o seu potencial

Susan Perry menciona o caso de um estudante que se sentia intimidado pela declaração de um escritor consagrado segundo o qual um romance abandonado era um romance perdido. Ora, o fator realmente importante é o seu entusiasmo pelo projeto. Quem já se engajou em projetos de longa duração – por exemplo, a redação de um livro ou de uma dissertação de mestrado – sabe que o nível de interesse do autor pela obra apresenta altos e baixos durante toda a sua execução.

Um período de intensa produtividade pode se seguir a um período de total desânimo.

E vice-versa.

Você pode sentir vontade de jogar tudo fora numa semana e, na semana seguinte, descobrir méritos inegáveis no trabalho já realizado.

E vice-versa.

Você pode se sentir soterrado por dificuldades aparentemente insolúveis num dia e, no dia seguinte, receber uma iluminação que resolve todos esses problemas de uma só vez.

E vice-versa.

O fato é que não há uma regra fixa quando o assunto é criação. Se houvesse, todos seríamos gênios e, portanto, a genialidade não existiria enquanto tal. Não permita que esse tipo de dica assassina o impeça de despertar o gênio dentro de você!

2 – Dicas que travam sua imaginação

Esse tipo de conselho pode ser resumido em fórmulas como “se você quer fazer sucesso, TEM QUE escrever sobre vampiros ricos e bonitões em conflito com lobisomens sarados sem camisa”.

Ao escrever, o autor – você! – cria um universo com suas próprias regras e, em seguida, convida o leitor para um passeio. Se a viagem for interessante, empolgante, divertida, emocionante, comovente, inspiradora ou excitante, o leitor aceitará as suas regras, sejam quais forem.

3 – Dicas para agendar sua criatividade

Esse tipo de dica maligna assume muitas formas. Por exemplo:

  • “Escreva todos os dias” ou “Escreva pelo menos 3 vezes por semana”.
  • “Escreva pelo menos 8 horas por dia” ou “Não escreva mais do que 30 minutos por dia”.
  • “Sempre escreva pelas manhãs” ou “É sempre melhor escrever à noite”.

Tudo bobagem. É importante manter uma rotina de trabalho e desenvolver hábitos produtivos? Sem dúvida! O problema é que cada pessoa precisa descobrir por si mesma quais são as rotinas e hábitos mais adequados ao funcionamento da própria criatividade. Simplesmente, não existe uma fórmula que sirva para todos!

Para citar um exemplo pessoal, minha esposa está sempre no auge da criatividade às 8 da manhã e todo o seu trabalho criativo encerra-se, no máximo, por volta de 5 da tarde. A partir desse horário, ela se limita às tarefas mais burocráticas e repetitivas. Já o meu funcionamento é diferente: eu preciso desempenhar tarefas mais burocráticas e repetitivas na parte da manhã, deixando as atividades criativas para o final do dia.

Precisa de uma agenda? Faça-a você mesmo!

4 – Dicas que o fazem sentir-se inferiorizado

O tom desse tipo de conselho é sempre o mesmo: você não é bom o bastante enquanto não for tão bom quanto Dostoyevsky. Até lá, segundo o palpiteiro de plantão, você deveria se entregar a um infinito exercício de autoflagelação moral que, na prática, servirá apenas para impedi-lo de progredir um passo de cada vez… Exatamente como fez Dostoyevsky!

5 – Dicas que transformariam seu trabalho em algo que você não quer fazer

Este tipo é semelhante às dicas que travam sua imaginação, com a diferença de que a tentativa de direcionamento é mais sutil.

Entenda o seguinte: muitas pessoas gostariam de se tornar escritores, mas não estão dispostas a fazer o esforço. Quando você pede uma opinião a essas pessoas, elas veem nisso uma oportunidade de escrever o livro delas através de você e do seu esforço!

6 – Dicas que induzem à conclusão de que tudo o que você faz está errado

Você se esforça por conta própria, sua a camisa, quebra a cabeça, queima pestanas e, ao cabo de semanas, meses ou anos, desenvolve um método original de trabalho, que funciona muito bem… Até o dia em que um “entendido” cheio de “autoridade” escreve um artigo, profere uma palestra ou concede uma entrevista afirmando que é “um absurdo” fazer as coisas do jeito que você faz!

Acostume-se com isso. O mundo está cheio desses “entendidos” cheios de “autoridade” que são muito bons de gogó mas não sabem escrever duas linhas que alguém queira ler.

7 – Dicas sobre a “maneira certa” de escrever

Em diversas ocasiões, escrevi neste site a palavra “método“. Vejamos o que diz o Dicionário Etimológico online sobre a origem dessa palavra:

A palavra método vem do grego, methodos, composta de meta: através de, por meio, e de hodos: via, caminho. Servir-se de um método é, antes de tudo, tentar ordenar o trajeto através do qual se possa alcançar os objetivos projetados.”

Ou seja: um “método” é apenas, pura e simplesmente, um meio para atingir um objetivo. Se você aplicar o método e não atingir o objetivo, você deve abandoná-lo e experimentar outro.

O problema é que muita gente não entende essa ideia essencial e cria um verdadeiro “fetiche” pelo “método mágico que resolve tudo”, transformando-o em um objetivo em si mesmo.

Isso é absurdo. Um curso de redação que se limite a ensinar um único método de escrita não merece esse nome. Em nosso curso online de redação, você terá contato com diversos métodos de escrever frases, parágrafos, seções e capítulos, de modo que possa escolher os que funcionam melhor e abrindo espaço para criar suas próprias soluções.

8 – Dicas que são mais orientadas para o mercado do que você

Sim, todo escritor deseja que seus livros sejam um sucesso de vendas. Infelizmente, é impossível escrever um bom livro quando se está amarrado por compromissos de mercado que o obrigam a abordar temas que não o interessam, a adequar sua linguagem a um público com que não tem afinidade, a defender ideias com que não concorda, a escrever em um estilo que não é o seu, e assim por diante.

Infelizmente, quando aborda esse tema, a autora escolhe um exemplo que recai no caso da dica assassina “6 – Dicas que induzem à conclusão de que tudo o que você faz está errado”. Referindo-se ao conselho frequente “antecipe-se ao que deseja o seu público e dê isso a ele”, a autora argumenta que muitos autores podem se sentir inibidos ao focalizar prematuramente um “público” (audience, em inglês).

A observação da autora faz sentido apenas se entendermos por “público” uma plateia impessoal, composta por múltiplos rostos indistintos, descrita em frios termos estatísticos.

Entretanto, que eu saiba, não há escritor que redija um texto sem imaginar uma pessoa, um ouvinte ideal interessado no que ele tem a dizer.

Por exemplo, o aluno redige as respostas às questões da prova pensando no que ele sabe sobre o professor. O professor, por seu turno, redigiu as questões da prova pensando no que ele sabe sobre os alunos.

O mesmo vale para redações escolares, trabalhos acadêmicos, contos, poemas, novelas, romances, dissertações, teses, roteiros, scripts, propostas comerciais, anúncios de propaganda… Escrever é praticar um ato de comunicação, em que o emissor codifica sua mensagem em reconhecimento à presença do receptor. Quando o escritor redige sem ter em mente um receptor ideal, o resultado é aquele tipo de “literatura para intelectual fingir que entendeu e gostou”…

9 – Dicas impossíveis de seguir na prática

Neste rol, há de tudo. Meu exemplo favorito é “esqueça tudo o que sabe sobre o assunto”. Se nosso cérebro viesse com um botão de “delete”, talvez até fosse possível fazer a experiência…

10 – Dicas de fazer doido

Neste campo, também há de tudo um pouco. Há quem proíba o escritor de fazer sexo. Ou de comer açúcar. Ou que o aconselhe a se mudar para o meio do mato. Ou a comer mato.

Não, você não precisa mudar sua vida, sua rotina e seus valores para escrever bem.

11 – Dicas sobre modelos padronizados infalíveis para redação de qualquer coisa

Quem estiver disposto a procurar, encontrará uma infinidade de modelos infalíveis para redigir qualquer coisa, de currículos e cartas comerciais a romances e novelas. O problema é que, para cada modelo infalível, há uma dúzia de histórias de fracassos retumbantes na execução desse modelo, ao lado de duas dúzias de casos de brilhante sucesso em que todas as regras desse modelo foram quebradas.

A melhor dica de todas

A melhor dica que alguém pode dar a você, que deseja aprender a escrever, é a seguinte: use o bom senso. Em vez de estressar-se e desmotivar-se com regras criadas por sabe Deus quem com sabe Deus qual objetivo, analise cada caso e desenvolva suas próprias soluções com base no que lhe parece mais sensato. Mesmo que você erre nas primeiras tentativas, o bom senso tem essa qualidade adaptável, que lhe permite aprender com a experiência e acertar nas próximas vezes.

E, claro, se você se sentir em chamas por uma intuição que o impele a mandar às favas o bom senso e seguir uma ideia diferente… Use o bom senso e siga essa intuição! Afinal, o bom senso serve apenas para aquelas situações em que não sabemos o que fazer e nos falta inspiração para ousar!